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Hackintosh: que tal falarmos sobre esse elefante na sala?

Hackintosh: que tal falarmos sobre esse elefante na sala?
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A prática do hackintosh é defendida por muitos por causa do preço dos Macs, mas o usuário precisa entender que fará concessões no sistema para funcionar.

Para começar esse artigo, preciso afirmar aqui que não irei discutir a questão jurídica do procedimento porque, para começar a conversa, não sou dessa área, apesar da justiça americana afirmar que é ilegal. Juristas de plantão podem se pronunciar nos comentários e enriquecer o debate.

Isto posto, vamos ao que interessa do nosso assunto.

Hackintosh: o que é isso?

Um hackintosh é, de forma resumida, um computador não-Apple rodando o sistema operacional da Maçã de Cupertino, atualmente chamado macOS, em qualquer de suas encarnações.

Momento história: num passado não tão longínquo, a Apple usava uma arquitetura de processadores baseada em PowerPC. Eram processadores desenvolvidos pela AIM, uma parceria formada por Apple, IBM e Motorola e fabricados pela última.

Apresentavam performance invejável, porém tinham problemas com consumo de energia e dissipação de calor, problemas estes que, em última instância, “forçaram” a Apple a fazer uma migração para a arquitetura x86, muito mais eficiente quando se usava a unidade “performance por Watt”, criada pelo Steve Jobs para justificar a transição.

A verdade é que a evolução dos processadores PowerPC estava limitada, muito provavelmente porque o volume não justificava o custo no desenvolvimento de produtos para o consumidor, sendo mais vantajoso focar no grande porte, coisa que a IBM seguiu durante anos.

A apresentação onde Jobs mostrou que o, na época chamado, Mac OS X estava sendo compilado para x86 desde 2001, em cenários “just in case” (o famoso “e se”) foi a confirmação de alguns rumores que circulavam na época.

Naquela mesma apresentação, várias novidades do sistema foram apresentadas para a plateia em uma máquina com um Pentium 4 instalado sem que ninguém soubesse, de forma a garantir que nessa migração não haveria uma perda de performance nas aplicações. O segredo só foi revelado perto do final do “show”.

Migração para processadores Intel era um rumor na época.

Sim, o sistema rodou perfeitamente, sem nenhum engasgo ou travamento, mostrando que o Mac OS X estava bem maduro naquela plataforma. Inclusive foi mostrado que aplicações compiladas para PowerPC rodavam no x86, através de uma camada de tradução chamada, muito apropriadamente, de Rosetta.

E o Hackintosh com isso?

Você deve estar se perguntando “E o Kiko?”. Muito natural, mas o conhecimento da história é o que define como seguiremos o futuro. E o futuro imaginado naquele momento foi a possibilidade de acesso de muitos ao sistema da Apple, sempre muito elogiado por seus usuários pela “solidez rochosa” e seus programas de criação de mídia “inigualáveis”.

Pessoas com computadores Wintel poderiam instalar o Mac OS, pelo menos foi o rumor que circulou da possibilidade da Apple licenciar o seu sistema, o que não aconteceu e não me surpreendeu.

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Afinal, o Mac OS passou a ser a “única” diferença dos computadores da Apple perante os seus concorrentes. Se o processador, memórias, armazenamento, tudo era igual, porque pagar mais caro em um computador da Apple se eu tivesse a possibilidade de ter o Mac OS apenas instalando ele em um computador equivalente, muito mais barato, montado em casa?

No final de tudo, o Mac OS verificava na instalação se o computador era fabricado pela Apple. Se não era, não instalava.

Porém, os hackers de plantão trataram de estudar o sistema e entender o seu funcionamento. Primeiro porque sim, depois porque seria divertido ver o sistema rodando em um outro computador.

E muitos usuários viriam a tirar proveito disso nos anos seguintes…

A comunidade.

Como é natural, toda novidade traz interesse e o interesse comum forma uma comunidade. Estabeleceu-se nesse ponto uma comunidade de usuários de PCs não-Apple executando o Mac OS.

Essa comunidade trabalha arduamente desde 2006 para promover o uso do macOS em qualquer computador. O fato do contrato do macOS não permitir esse tipo de uso é mero detalhe aqui. A maior e mais importante dessas comunidades é a tonymacx86, ativa há anos com atualizações constantes.

Quais os impactos de usar um hackintosh?

Aqui é onde a coisa costuma pegar fogo. Quem defende a prática alega que é perfeito, mas, convenientemente, não deixa claro que o processo não é tão “user friendly”.

Primeiro é preciso ter o hardware compatível porque não é qualquer hardware que funciona. Placas de vídeo, processadores, placas de rede cabeada e sem fio, bluetooth, tudo tem que ser compatível com o sistema porque drivers externos ao macOS não são comuns.

O tonymacx86 mantém listas de hardwares que são compatíveis. Muitas vezes não disponíveis em todos os mercados e com preços acima da média.

Não entendam errado: é muito fácil conseguir o driver junto ao fabricante de uma placa de rede ou de uma controladora USB 3.0, uma impressora sem fio, mas ninguém baixa driver de processador do site da Intel ou AMD. Esses precisam existir no sistema operacional. E como fazer com um hardware que o fabricante não projeta driver para o macOS?

Os pontos cruciais:

  • Segurança:

O sistema precisa ser modificado para a instalação, primeiro para fazer o by-pass da verificação se o hardware é Apple ou não. Depois, para reconhecer o hardware da máquina e mais modificações são necessárias para o sistema iniciar.

Não estou questionando aqui a idoneidade dos hackers que estão se dispondo a colocar o sistema para rodar, mas, para o usuário comum, que tipo de concessões foram feitas para permitir que o sistema rode no hardware não homologado?

A primeira coisa que se abre mão aqui é do recurso de proteção da integridade do sistema, ou SIP na sigla em inglês. Com o SIP desligado, qualquer software devidamente desenvolvido para explorar essa brecha se instala no sistema sem o conhecimento do usuário.

Ativando o SIP, qualquer modificação feita no sistema impede que ele seja iniciado, ou seja, o sistema se “tranca” para que o usuário permaneça seguro até que a modificação seja revertida, o que impediria o funcionamento do hackintosh.

Ou seja, a primeira e talvez a mais importante camada de proteção é simplesmente desativada para que o macOS funcione fora do “jardim murado” da Apple.

A inicialização segura, que é uma camada do SIP, também é desativada. Inclusive, o “boot loader” (o gerenciador de inicialização) é modificado, de forma a permitir que o sistema “dê partida”.

A instalação de um emulador de SMC (System Management Controller), um controlador especial que gerencia todas as funções de energia do Mac precisa ser emulado porque ele não existe, não na mesma essência, fora dos computadores da Apple.

Esse emulador, por mais bem desenvolvido que seja, é uma peça alienígena do sistema, que pode ser programada de forma vil, para abrir brechas no sistema.

Isso tudo sem contar os drivers modificados que o sistema utiliza para o funcionamento básico.

Tudo isso abre brechas que podem ser exploradas porque diminuem a segurança do sistema.

  • Privacidade:

Falar de privacidade é complicado. Nos tempos de internet nas mãos de todos e pessoas pouco preocupadas com esse assunto, é comum ouvir que “eu abro mão da minha privacidade para ter um serviço bom e sem custo”.

Esquecem que, se você está usando algo sem pagar, o produto é você e alguém está ganhando muito dinheiro com isso, sem te dar nenhum centavo em troca.

Esse tópico aqui é curto: se a segurança do sistema é comprometida para que o hackintosh funcione, essa é a porta onde a privacidade também se perde. Mesmo que o hacker não tenha a intensão de invadir a sua máquina, ele pode escrever as peças de software necessárias para o hackintosh de forma a obter dados desses usuários.

Com esses dados em mãos, seja de uso de programas, sites que acessa, serviços instalados, é fácil criar um perfil de usuário e vender para os mais diversos interessados, de forma a distribuir publicidade direcionada. E reforço: você virou produto, sem ganhar um centavo com isso. Pior: sem nem saber ou concordar com isso.

  • Estabilidade:

Muito do código modificado é trabalhado por uma ou poucas pessoas. O processo de debug é realizado em poucos hardwares e o funcionamento perfeito é extrapolado baseado no fato de que as máquinas costumam seguir padrões, mas fabricantes adoram personalizar coisas.

Basta uma revisão de código falhar e pronto, seu sistema passa a ter comportamento inesperado. Pode ser que um problema aconteça em alguns hardwares específicos, que, por impossibilidade, não foi testado pelo desenvolvedor.

Você investiu alguns milhares de Reais e descobriu que o seu sistema não vai rodar o macOS porque a combinação específica da placa-mãe com o processador (ambos na lista de compatibilidade) gera uma incongruência que o desenvolvedor não tratou.

Quando trata, sem ter o hardware para testar, fica na tentativa e erro até acertar. E quando acerta, quebra a compatibilidade de outra coisa. E a novela se arrasta até você desistir, comprar outro processador e fazer funcionar.

Isso pode se repetir por vários e vários exemplos. Pode não ser tão comum e não ter acontecido com você, mas acontece com uma frequência indesejável. Basta consultar os fóruns dedicados.

  • Atualizações e suporte

Aqui há um ponto importante:  a toda nova versão do macOS lançada pela Apple ela tenta implementar, em vão, recursos que impeçam que os usuários de hackintoshes consigam instalar essa versão em seus computadores.

Dessa forma, o usuário tem que esperar a comunidade atualizar os métodos, drivers e emuladores necessários para que a atualização seja possível. Como o suporte de hardware de cada vesão do macOS muda, não é incomum ter que mudar o hardware da máquina para rodar a versão mais nova.

Ou seja, além de não poder aproveitar os recursos mais novos, muitas vezes o usuário se encontra sem suporte. A quem recorrer se meu sistema não funcionou como o esperado? A Apple não tem responsabilidade alguma sobre isso.

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Hardware Apple: A única forma de executar o macOS sem abrir mão de recursos de segurança.

Afinal, é bom ou não usar um hackintosh?

Como eu comentei no nosso último podcast (aqui em vídeo e aqui em áudio aos 56m41s), quando você compra um computador você não está apenas comprando hardware, mas junto dele, software, suporte, garantia, pesquisa e desenvolvimento e marca.

Quando você compara o preço de um Mac com um PC montado é uma comparação injusta porque o custo de suporte, garantia, P&D e marca passam a ser apenas seu. A comparação justa é quando você olha os preços de produtos semelhantes nos concorrentes. E quando se faz isso, pelo menos lá na civilização, percebe-se que os valores são também semelhantes.

Ah, e antes que alguém venha comparar o preço de um notebook gamer com um Macbook Pro, não, eles não são semelhantes. O Macbook Pro é um produto que seria mais alinhado ao mercado corporativo, portanto compare-o com os semelhantes nessa área.

Com valores semelhantes (na civilização), não entendo o que motiva um usuário de um computador de marca a comprar um equipamento de um fabricante qualquer que esteja na lista de compatibilidade e instalar o macOS nele. É muito trabalho por pouco ganho, a não ser que o ganho seja o do conhecimento.

E a galera do “PC montado da alegria” que consegue configurações parrudas com custo mais baixo? Ainda assim eu não recomendo rodar um sistema operacional que, devido a tudo que foi escrito, não tem o nível de segurança e privacidade garantidos que deveria. Acho melhor opção nesse caso usar Windows ou Linux e deixar o hackintosh de lado.

Obviamente, definir o que é bom ou não para os outros não me cabe, portanto, a resposta para a pergunta que capitula esta parte do texto é você, leitor, quem deve dar.

Gostaria apenas de fazer uma provocação para os leitores: você confiaria suas informações como senhas, dados bancários e documentos em um sistema que foi violado e teve recursos importantes de segurança desativados só para rodar em um hardware não homologado?

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